Thursday, October 20, 2005


O homem "Som Livre"

Depois de saber que, para poder assistir ao documentário “Descobrindo Waltel” (Rede SescSenac, 18/10/05, 15h30min), dirigido por Alessandro Gamo, teria de pagar R$ 349,00 (trezentos e quarenta e nove reais) pelo empréstimo, em comodato, do aparelho decodificador do sinal da TV a cabo, “meu mundo caiu”.

Além da módica quantia, haveria ainda um acréscimo no valor da mensalidade, por causa da “mudança de tecnologia” (do analógico para o digital), disse-me a atendente telefônica da operadora de TV por assinatura. Talvez essa alteração seja atraente para quem tem aqueles monitores de tela plana, plasma, lcd e o escambau, em formato de tela de cinema (o tal 16x9 polegadas), que custam vários milhares de reais.

Para assistir ao curta-metragem num televisor do final dos anos 1.980 não haveria porquê. Poderia ser até em VHS.
*

Não bastasse o filme sobre o músico Waltel Branco (atenção: não se trata do “ou não?” experimentalista Walter Franco, já agraciado anos atrás com alguns minutos de filmagem), pré-estreiou “Viva-volta”, curta-metragem documentário dirigido por Heloisa Passos, sobre o trombonista brasileiro Raul de Souza, o Raulzinho do Trombone, no dia 17/10/05, às 21h00, no MIS (Museu da Imagem e do Som) de São Paulo. Raulzinho tem a favor de si, no momento, o lançamento em DVD do filme “Saravah” (Biscoito Fino/2.005), dirigido por Pierre Barouh. Aficcionado por bossa-nova e por música brasileira desde que participou, como ator e cantor, da versão de Francis Lai para o “Samba da bênção”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, que fez parte da trilha do filme “Um homem e uma mulher” (1.966), de Claude Lelouch, Barouh finalmente conseguiu ter seu filme lançado no país em que o realizou, nos fins da década de 1.960. Raulzinho aparece tocando numa cena que registra o ensaio de um show que Maria Bethânia iria estrelar logo mais.

Salta aos olhos uma certa “modinha” em reascender, através de documentários, “work-shops”, “shows-homenagem”, a carreira destes e de outros artistas responsáveis por emoldurar grande parte das canções da música brasileira de meados dos anos 1.960 até 1.975. Tenta-se vir à tona, como que faltasse reconhecimento em vida, e no próprio país, para poder completar a saga musical que cada um galgou, mesclando-se hierarquicamente nas gravações alheias, mas sem perder o "élan" próprio.

A lista é interminável: Carlos Pipper, Portinho, Lyrio Panicalli, Eumir Deodato, Astor, Nelsinho, Luiz Eça, Cipó, J.T. Meirelles, Celso Murilo, Antonio Adolfo, César Camargo Mariano, Peruzzi, Waltel Branco, Élcio Alvarez, Pachequinho, Carlos Monteiro de Souza, Lyndolpho Gaya, Carioca, Leo Peracchi, Edson Frederico, Chiquinho de Moraes, Erlon Chaves, Mário Castro-Neves, Walter Wanderley, Osmar Milito, Geraldo Vespar, Sérgio Carvalho, Luiz Carlos Vinhas e tantos outros mais...

O paranaense Waltel Branco, em 1.966 idealizou um projeto, que se tornou disco, chamado “Mancini também é samba”, cujo intuito era transpor as composições temáticas de Henry Mancini para ritmos mais cadenciados, para dançar. Ou seja, a idéia era tocar as obras de Mancini em ritmo de samba, mas não aquele samba cru, bruto, de “teleco-teco”, já que se vivia o auge do samba-jazz, com seu balanço de irresistível suingue.

Para auxiliá-lo na pequena, mas atuante gravadora pernambucana Mocambo (Fábrica de Discos Rozenblit), Waltel arregimentou os melhores instrumentistas disponíveis: Salvador Filho (hoje Dom Salvador) no piano, Sérgio Barroso no contra-baixo, Victor Manga na bateria, Pinduca no vibrafone, Aurino Ferreira no sax-barítono, Meirelles no sax-alto e tenor, Edson Maciel e Astor no trombone, o efêmero Pedro Paulo no trumpete, Neco no violão, Rubens Bassini no pandeiro e Jorginho Arena na tumbadora. Sem contar as participações especiais de Julinho Barbosa, Mozart, Hamilton e Maurílio (do elenco da então RCA) no trumpete e K-ximbinho e Cipó no sax-alto e tenor, respectivamente, sumidades em seus instrumentos.

O resultado não poderia ser outro que não a estupefação. Com o repertório que incluía alguns “standards”, como “Moon River”, “Peter Gunn”, “Mr. Lucky” e “The Pink Phanter Theme”, transfigurados em puro balanço samba-jazz e outras composições já demais conhecidas (“Meglio Stasera”, "My Manne Shelley” e “Lightly”), o disco, que, pela capa e pelo ano de lançamento, poderia soar como uma galhofa, é coisa muito séria, dos tempos em que se fazia arte sem pensar em ser moderno, porque "avant-garde", como modernidade somada à ousadia, era aquela.

2 Comments:

Anonymous Leão Longobardo said...

O que Waltel Branco fez nas trilhas da Globo, é bom lembrar, mereceria um "Oscar". Mas, para quem é bom, o que vem de bônus é lucro mesmo que o relançamento do álbum dedicado ao (maravilhoso) Mancini custe uma pequena fortuna: uma pena que o selo Whatmusic não possa também ser samba embora tenha tanta bossa.

1:31 AM  
Blogger Domingos Junior said...

É caro, mas se paga com o suor do rosto (muito suor, no meu caso).
As trilhas da Orquestra Som Livre ficam pra outro texto, nada "Cafona", certo?
O disco com músicas de Mancini veio antes da Som Livre, este sim o bônus. "Ou não?"

7:06 AM  

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