Monday, February 13, 2006


"Feito em casa"

Não precisa torcer o nariz. O guisado não queimou, nem o caldo entornou no caldeirão. E a Iá-Iá ainda fez quindim para a sobremesa.

Sim, Sergio Mendes. O "vendido", como a dita "esquerda festiva" d'"O Pasquim" gostava tanto de repetir lá no início dos anos 70. Certamente o nome latino o ajudou a firmar a estaca do sucesso nos "States", mas sem seu talento, não haveria carreira que pudesse se sustentar, aqui, ali, em qualquer lugar.

Dez anos depois da versão "bubblegum" de "Mas, que nada" (Jorge Ben), Sergio Mendes tinha formado mais um grupo para acompanhá-lo, o Brasil 77, com quem gravou esse "Home cooking" (1976/Elektra-RCA-Sony&BMG).

Como bem descreve o "expert" Arnaldo DeSouteiro no texto incluído no encarte do disco relançado, dentro da série "RCA Original", o som do momento era o "fusion", um "mish-mash" de jazz, rock e funk, regado a r'n b.

A produção certeira feita por Mendes e a participação de excelentes músicos como Claudio Slon (bateria e percussão), Paulinho da Costa (percussão), Frank Rosolino e Raul de Souza (trombone), Oscar Castro Neves (violão), Michael Sembello (guitarra), Don Meza (sax tenor) e Hermeto Pascoal (flauta e Hammond) contribuem para que "Home cooking" seja quase um disco de "fusion". Não chega a tanto, graças ao balanço de Paulinho e ao pendão funky dos baixistas Chuck Rainey e Louis Johnson.

A presença de Gilberto Gil, se não bonifica, tampouco atrapalha, especialmente em "Emoriô" (João Donato/Gilberto Gil), faixa em que o baiano diz aquelas coisas sem lé nem cré, como é de sua praxe.

"Sunny day" e "It's so obvious that I love you" são o "must" do disco. A primeira é uma pérola pop. Os "riffs" inspirados de guitarra, as vozes poderosas das vocalistas, os trombones e o piano Fender Rhodes de Sergio Mendes que transpassa toda a faixa. Além do refrão deliciosamente grudento ("sunny day, sunny day, sunny day, yeah-yeah-yeah").

"It's so obvious that I love you", da lavra do casal Carlos e Kate Lyra, viria a ser gravada em 1977 por Nara Leão no LP "Os meus amigos são um barato" (Philips-Phonogram-Universal), só que na versão em português, "Cara bonita", sem dar crédito a Kate Lyra, atual defensora do feminismo no chamado funk carioca, pela participação na composição.

(Nara jamais deixaria registrada, naquele então, uma despretensiosa "canção para inglês ver". O máximo a que se permitiu foi dizer "yeah" em "Sarará miolo", com o beneplácito do tropicalista Gil.)

"Tell me in a whisper" (Edgar Winter/Dan Hartman) poderia ocupar o lugar de qualquer outra faixa numa coletânea "lounge" de restaurante tailandês moderninho. É "new-bossa" como Celso Fonseca e congêneres tentam fazer há vários anos.

Com muita pimenta vermelha, os cozinheiros e seu "Chef" aprontaram uma boa caldeirada, feita em casa. Aqui ou lá. Não importa.

7 Comments:

Anonymous Matheus Trunk said...

Caro amigo Domingos, sobre a lista: gosto do Waldick também, mas os discos dele são muito difíceis, muito caros, pois ele teve uma rápida passagem pela RCA Victor em que logrou seus sucessos e brigou com a galera da gravadora. Por isso, foi meio odiado e é muito difícil achar mesmo coletâneas em LP, tipo no Discomania você não acha os bregas. Mas tem um disco dele que ele só canta Roberto e Erasmo Carlos que é fenomenal (!!!), pela NOVA Copacabana. Mas não dava pra botar todo mundo Domingos. Na minha sincera opinião, o Paulo Sérgio cantava muito bem, chegando a altura do Roberto nos melhores momentos. Minha opinião, gosto mais dele que do Odair José. Não é a toa que o cara mereceu dois discos nos "10 mais". Faltou uma porrada de gente mesmo: Lindomar Castilho, Ronaldo Adriano, Ronaldo Resedá, Gilliard, Wando, Agepê, Dick Danello, Ed Costa, Ed Carlos, Ed Wilson, Jean Carlos, Giane, Wanderléa, Waldirene, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani, Balthazar, Trio Los Angeles, Fevers...Um mar de artistas, foi só mais os do período pos-jovem Guarda mesmo (68-78). Engano seu Domingos, o Luiz Ayrão também tinha contrato com a major EMI-Odeon e não somente o Timóteo. Embora a Polydor fosse selo popular ele era da Philips, bom lembrar que até os Mutantes gravaram pela Polydor e não somente os bregas, os cafonas. Pela RCA Victor, selo chique, tinha o Lindomar Castilho, o Waldick, Carmen Silva. Mas os legais são Beverly, Copacabana e AMC.

9:45 AM  
Blogger Domingos Junior said...

Matheus!
Adoro aqueles bolerões do Waldik, com arranjos orquestrais pomposos, cordas e coro...
Eu sei que não dava pra colocar todo mundo. Sua dedicação ao tema já é especial. Só sugeri o Waldik por causa da repetição do Paulo Sérgio.
Tem razão, Matheus, o Luiz Ayrão também gravou pela Odeon. (Você diz isso lá. Eu que não prestei a atenção...)
A RCA bem que podia lançar uma caixinha ( em versão avulsa também) com os discos do Antonio Carlos e Jocafi, né?
Você gosta dessa loja Discomania? Acho o atendimento péssimo...

10:26 PM  
Anonymous Matheus Trunk said...

O atendimento é uma BOSTA cara mais é o lugar que mais encontro disco e que mais compro disco. Lá que comprei o primeiro do Ed que ele não tinha. Vou direto lá, os caras ficam putos comigo direto, mas foda-se, a gente sempre aprende de música. Eles são uns filhos da puta mas tem um PUTA acervo amigo Domingos e tipo tem um sebo pequeno aqui de Pinheiros e o cara é especializado em bossa nova e você fica com vergonha, (eu pelo menos fico cara) de comprar Nelson Ned, isso já aconteceu os caras ficam com uma cara...Mas o Discomania é muito bom, o atendimente é o diferencial !!! Voltando ao Timóteo, ele é demais mesmo, a que você falou O Conquistador é sensacional. O negão é dez ! Sobre Waldick: preciso conhecer mais dele mesmo, acho as frases dele sensacionais: "não tenho nada contra os hippies. Tenho contra a polícia que não desce o cacete neles" !!! Caro amigo, curto Antônio Carlos & Jocafi também, tenho em vinil aquela coletânea legal da RCA Victor, a "Acervo Especial". Já os bregas da RCA tipo Carlos Gonzaga, Antônio Marcos, Nilton César, Vanusa não era Acervo especial e sim "série popular brasileira" !!! Mas então, tem uma filial do Discomania que tudo é um real, comprei muito disco da Vanusa lá. E quando eles não tem troco, eles pagam em mais disco !!! Compro mais disco nesses lugares, ás vezes no Red Star, de vez em quando em feiras. Gasto muito dinheiro num sebo que é perto do meu dentista no Itaim, na rua Clodomiro Amazonas, logo depois duma igreja, chamado Nuvem Nove (se não me engano) só tem caras metaleiros e de vez em quando vai um cara lá e fica horas e horas olhando discos de Jovem Guarda. Comprei um disco do Jean Carlo lá, o ceguinho da Jovem Guarda !!! O atendimento não é dos melhores, todo mundo lá é metaleiro, o dono é presidente do fã clube do Rush no Brasil e você comprando Martinha !!! Os caras não são muito chegados não e vale olhar mesmo os de Bossa Nova, Velha Guarda tem coisa bem barata lá. Dick Farney pros 3 pau, Nelsão pelo mesmo, Chico Alves por 8. Mais barato que Discomania, embora a diversidade não seja grande. Tem um cara de Osasco que tem todos os discos do Ed e que me vendeu alguns, mas ele é meio sem vergonha e queria 30 pau por disco. Ai preferi sustentar o Discomania mesmo. Quando não acho em lugar nenhum um disco e quero muito, ás vezes simplesmente ligo pra Baratos e Afins bicho, mas não vou lá, só ligo pra ver o preço. No mais: estes são os sebos que frequento me fale dos seus amigo, assim estaremos trocando figurinhas. Qual o melhor do Waldick "Leva este chapéu" ??

12:01 PM  
Anonymous Anonymous said...

Sobre Sérgio Mendes,
Alguém poderia comentar sobre ou indicar comentários online a respeito dos discos dele da série & Brasil XX , em que XX é ano?
Eu ainda não tenho, desses, 1 disco que seja.
Estou começando uma "carta" de discos e como pelas beiradas.
Já que Domingos diz que Sérgio Mendes é oportunista, supondo que eu concorde, estou sendo Sérgio Mendes.
Reparei que é fácil encontrá-los(não todos, claro como o sol, Clóvis) e por ótimos preços.
Obrigado,
Arthur

2:35 PM  
Blogger Domingos Junior said...

Matheus:
Escrevi sobre alguns sebos lá no seu blog.
Mas, me diz uma coisa... você não acha que o Sergio Mendes também não seria mais um desses "bregas", só que em escala planetária? Tão satanizado pela crítica nacionalista quanto um Fernando Mendes, por exemplo. Que peacado capital que é ser popular, né?

11:36 AM  
Blogger Domingos Junior said...

Arthur:
À parte os discos anteriores a 1966 (menos "colonizados"), o "My favorite things", o "Look around", o "Ye-me-lê", o "Fool on the hill", o "Stillness"... Bom pensando bem, gosto de todos os Brasil'66. Talvez eu goste menos do "Crystal Illusions".
O álbum mais "original" do Mendes é o "Raízes" (lançado como "Primal roots" lá nos EUA), bem percussivo.
O "Vintage'74", já como Brasil'77 é bem cafonão mesmo, não tem jeito. Muito sintetizador, sabe?
Depois desse "Home cooking", o "Sergio Mendes and the new Brasil'77" é interesante, mas especialmente por causa da contracapa, com os músicos de muleta e esparadrapo depois de uma partida de futebol apitada pelo juiz Mendes.
Os discos do anos 80 são bem anos 80 (!) Um pouco "world music"... "Brasileiro", de 93, ganhou um Grammy na categoria...
Até mais, Mr. Arthur.

11:53 AM  
Anonymous Matheus Trunk said...

O "problema" do Sérgio Mendes é ter tano talento, que acabou sendo reconhecido fora do país que dentro. Pode ser meio Fernando Mendes mesmo, porque ficou sendo sacaneado por ser popular. Ai como fez no estrangeiro ficou "entreguista" e tal. Mas ele é bem doido e bem mais talentoso. Mas é isso aí, belo disco hein, tenho o de 77. Mas não conheço muita coisa dele não.

11:05 AM  

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